terça-feira, 31 de julho de 2007

Soneto de fidelidade


Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure


Vinicius de Moraes

A Hora da Partida


Primavera no Campo dos Mártires, originally uploaded by meira888.


A Hora da Partida

A hora da partida soa quando
Escurecem o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.



Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 29 de julho de 2007

Açores


Pelos olhos de Sophia..., originally uploaded by Joe Taruga.


Há um intenso orgulho
Na palavra Açor
E em redor das ilhas
O mar é maior

Como num convés
Respiro amplidão
No ar brilha a luz
Da navegação

Mas este convés
É de terra escura
É de lés a lés
Prado agricultura

É terra lavrada
Por navegadores
E os que no mar pescam
São agricultores

Por isso há nos homens
Aprumo de proa
E não sei que sonho
Em cada pessoa
(…)

Açores – Sophia de Mello Breyner Andresen

Nacos de Nuvem


Beautiful things..., originally uploaded by Joe Taruga.

"Nacos de Nuvem"

No céu flutuavam trapos

De nuvem - quatro farrapos:

do primeiro ao terceiro - gente;
o quarto - um camelo errante.

A ele, levado pelo instinto,
no caminho junta-se um quinto.

do seio azul do céu, pé-ante-
pé, se desgarra um elefante.

Um sexto salta - parece.
susto: o grupo desaparece.

E em seu rasto agora se estafa
o sol - amarela girafa.

Vladimir Maiakovski

( Tradução de Augusto de Campos)

What we do...


Cruzaram-se comigo..., originally uploaded by Maria Rego.



What we do during our working hours determines what we have; what we do in our leisure hours determines what we are.


George Eastman

Estação


The old Sailor ..., originally uploaded by Azorina.

Estação


"Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça."


Mário Cesariny

Vê as aves que cantam no bosque...


Vê as árvores que crescem nas colinas:
Cada uma tem o seu coração particular.
Vê as aves que cantam no bosque:
Cada uma tem a sua própria melodia.
Vê os peixes que nadam no rio:
Este aqui ondula e aquele mergulha.
É vertiginosa a altura das montanhas
Insondável a profundidade das águas!
A aparência das coisas é fácil de ver
Chegar aos seus princípios é uma busca árdua.

Xiao Yan (454-569)

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Quando eu nasci...


... at the handicraft market, originally uploaded by ana_maria_.



Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Pequeno poema - Sebastião da Gama (1924 - 1952)

Cântico Negro


...os passos dessa estrada..., originally uploaded by Joe Taruga.


(...)
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga:«vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!

Cântico Negro - José Régio

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Ó sino da minha aldeia


+, originally uploaded by _Margarida_.


Ó sino da minha aldeia

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa