A abelha poisa na flor
Tonta de amor
Sem cuidados
Quis um dia ser abelha
Disse mal dos meus pecados!
Vasco de Lima Couto
sábado, 2 de junho de 2007
A abelha...
Mar

Vastness, originally uploaded by Ana Valéria.
MAR
Bebo-o a colherinhas de olhos
na taça da manhã.
E nem ele se esgota,
nem eu me sacio.
Luisa Dacosta
Barca Bela
Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela…
Mas cautela,
Oh pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!
Almeida Garrett
There are no evils...
There Are No Evils in Nature.
There Are Only Evils of Man
Hundertwasser, may 1990
Send me a leaf...
Send me a leaf, but from a bush
That grows at least one half hour
Away from your house, then
You must go and will be strong, and I
Thank you for the pretty leaf.
Bertolt Brecht
Carne viva
Carne Viva
Aconchego-me nos andrajos. Procuro
(inútil) não tiritar de frio.
A vida é longa e fria. Um longo e frio muro
a marginar, ao longo, um longo e frio rio.
Aconchego-me nos andrajos. Puxo. Repuxo.
Estendo os olhos, implorativos, à caridade.
Perto, em confortáveis silogismos de luxo,
capitalistas da verdade.
António Gedeão - Movimento Perpétuo, 1956
I am the escaped one
I am the escaped one,
After I was born
They locked me up inside me
But I left.
My soul seeks me,
Through hills and valley,
I hope my soul
Never finds me.
I am the escaped one -
Fernando Pessoa - English Poems
Balada de Neve
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
(...)
Augusto Gil - Balada de Neve
De tarde...

Spring fever, originally uploaded by isolano.
Naquele “pic-nic” de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima de uns penhascos,
Nós acampamos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão,damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda,
O ramalhete rubro de papoulas!
Cesário Verde - De Tarde
sexta-feira, 1 de junho de 2007
Cegonha
O Rio Amarelo corre para leste
rumo ao grande oceano.
O Sol cai todos os dias
no distante mar do ocidente.
Correm as águas, mas o tempo passa
mais célere ainda.
Ontem tinha o vigor da Primavera,
hoje, sou um Outono brando e cinzento.
Entre homens e pinheiros há diferença.
Quem não receia o frio?
Para manter a eterna juventude
Devo montar num dragão,
Subir ao céu, voar no espaço
E inebriar-me de sol e de luar.
Li Bai (chinês)









