"A neta explora-me os dentes.
Penteia-me como quem carda.
Terra da sua experiência,
Meu rosto diverte-a, parda
Imagem dada à inocência.
E tira, tira puxando
Coisas de mim, divertida.
Assim me vai transformando
Em tempo de sua vida."
O Futuro Perfeito - Vitorino Nemésio
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
O Futuro Perfeito
sexta-feira, 8 de junho de 2007
Liberdade
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O Sol doira
Sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Liberdade - Fernando Pessoa
quarta-feira, 6 de junho de 2007
Aqui na orla da praia
Aqui na orla da praia
A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sonho que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega ; não tem verdades a fé.
Fernando Pessoa
Por trás daquela janela...
Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Cuja cortina não muda
Coloco a visão daquela
Que a alma em si mesma estuda
No desejo que a revela.
Não tenho falta de amor.
Quem me queira não me falta.
Mas teria outro sabor
Se isso fosse interior
Àquela janela alta.
Porquê? Se eu soubesse, tinha
Tudo o que desejo ter.
Amei outrora a Rainha,
E há sempre na alma minha
Um trono por preencher.
Sempre que posso sonhar,
Sempre que não vejo, ponho
O trono nesse lugar;
Além da cortina é o lar,
Além da janela o sonho.
Assim, passando, entreteço
O artifício do caminho
E um pouco de mim me esqueço
Pois mais nada à vida peço
Do que ser o seu vizinho.
Fernando Pessoa
Cancioneiro
Não sou a areia...
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.
Lya Luft
(Extraído do livro "Perdas & Ganhos", Editora Record - Rio de Janeiro, 2003, pág. 12. )
Quem me compra um jardim...
Quem me compra um jardim
com flores?
borboletas de muitas
cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis
nos ninhos?
Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro
e a hera,
Uma estátua da Primavera?
Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua
canção?
E o grilinho dentro
do chão?
(Este é o meu leilão!)
Cecília Meireles
terça-feira, 5 de junho de 2007
The finest workers...
The finest workers in stone are not copper or steel tools, but the gentle touches of air and water working at their leisure with a liberal allowance of time.
Henry David Thoreau
Campo de flores
(...)
Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.
(Campo de flores – Carlos Drummond de Andrade)
Beleza Colorida
Gloria a Deus pelas coisas matizadas -
Pelo firmamento de cores combinadas como uma vaca malhada;
Pelos sinais rosados, pontilhados, das trutas nadando;
Pela queda de folhas amarelas de castanheiros;
Pelas asas dos tendilhôes;
Pelas terras divididas e unidas - onduladas, alouradas e lavradas;
E todos os ofícios, os seus aparelhos e apetrechos preparando...
Beleza Colorida
Gerard Manley Hopkins
domingo, 3 de junho de 2007
The best remedy...
The best remedy for those who are afraid, lonely or unhappy is to go outside, somewhere where they can be quiet, alone with the heavens, nature and God. Because only then does one feel that all is as it should be and that God wishes to see people happy, amidst the simple beauty of nature.
Anne Frank
sexta-feira, 1 de junho de 2007
Cegonha
O Rio Amarelo corre para leste
rumo ao grande oceano.
O Sol cai todos os dias
no distante mar do ocidente.
Correm as águas, mas o tempo passa
mais célere ainda.
Ontem tinha o vigor da Primavera,
hoje, sou um Outono brando e cinzento.
Entre homens e pinheiros há diferença.
Quem não receia o frio?
Para manter a eterna juventude
Devo montar num dragão,
Subir ao céu, voar no espaço
E inebriar-me de sol e de luar.
Li Bai (chinês)
quarta-feira, 30 de maio de 2007
Impressão digital
(...)
Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!
António Gedeão - Impressão Digital
É triste...
"É triste saber que a Mae-natureza nos fala e que a natureza-humana nao a escuta"
(Victor Hugo)














